Como melhorar a lotação de academias com produtos digitais?

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O desafio: Como resolver o problema da lotação das academias com ajuda de produtos digitais?

Em 2022, a Smart Fit se deparava com uma questão crítica: academias cheias eram sinal de sucesso, mas também uma fonte de insatisfação crescente. Para 68% dos alunos, a lotação era a principal barreira para manter o ritmo dos treinos, e 20% dos cancelamentos estavam diretamente ligados a essa percepção.

Expandir fisicamente as unidades, no entanto, não era uma opção viável. O mercado imobiliário estava saturado, tecnologias de monitoramento eram caras, e adicionar máquinas poderia comprometer o espaço disponível — criando mais problemas do que soluções.

O insight: O problema maior não é o espaço — é a experiência com o espaço

A partir de uma abordagem centrada no usuário e orientada por dados, reformulamos a maneira de enxergar o problema. O que parecia um desafio do mundo físico/tangível era, na verdade, uma questão de percepção.

Coleta de sinais

Combinamos diversas fontes para entender a raiz da insatisfação:

  • Dados quantitativos e pesquisas de UX (aplicadas anteriormente pelo time de Research, posteriormente coordenado por mim) revelaram que 68% dos alunos viam a lotação como principal barreira ao progresso, e 20% dos cancelamentos estavam associados a esse fator.
  • Feedbacks espontâneos em redes sociais, Reclame Aqui, lojas de aplicativos e NPS indicavam frustração com a espera por equipamentos:
    • “É impossível treinar com conforto, os equipamentos estão sempre ocupados.” – Vila Velha (ES)
    • “A academia está constantemente lotada, independentemente do horário.” – Botafogo (RJ)
  • Observação direta e workshop com instrutores mostraram que a experiência de lotação estava mais relacionada à indisponibilidade de máquinas específicas do que ao número absoluto de pessoas.
  • Feedbacks internos de lideranças e times regionais reforçaram preocupações com horários de pico, eficiência operacional, canibalização entre unidades e falta de escalabilidade de soluções puramente físicas.
  • Dados transacionais indicavam baixa penetração e uso do app, mesmo com usuários ativos apresentando um LTV 1,4x maior.

Era claro que existia uma oportunidade: se a percepção era o problema, como oferecer controle ao aluno para que ele mesmo reduzisse o impacto da lotação na sua experiência?

Ressignificando o problema

Diante dos dados e da escuta ativa dos alunos, percebemos que a raiz do problema não era a quantidade de pessoas nas academias, mas como cada aluno vivenciava a ocupação do espaço. O incômodo vinha menos da presença de outros e mais da frustração de não conseguir seguir o treino como planejado, especialmente para alunos de nível iniciante. Era, portanto, uma questão de percepção e controle — não apenas de infraestrutura.

Essa virada de chave nos levou a reformular a pergunta central do projeto:

Como podemos minimizar a percepção de lotação, oferecendo mais autonomia e flexibilidade ao aluno?

A proposta de solução: Autonomia no treino com a Troca de Exercícios

A resposta veio com a criação da funcionalidade Troca de Exercícios no app da Smart Fit.
A ideia era simples e poderosa: permitir que o aluno substituísse exercícios prescritos por alternativas equivalentes, focadas no mesmo grupo muscular, caso o equipamento estivesse ocupado.

Essa autonomia trazia diversos benefícios:

  • Evitar tempo perdido e revezamentos → Treinos concluídos mais rapidamente representam mais espaço nas unidades
  • Reduzir a dependência de instrutores → Instrutores com mais tempo para corrigir alunos nas execuções
  • Permitir treinar nos horários de pico sem prejuízo →Permitir que mais usuários usem a academia no horário mais concorrido
  • Adaptar o treino à realidade do momento → Adaptação que representa treinos concluídos mais rápido e com maior satisfação
  • Aumentar o engajamento com o app e, consequentemente, o LTV → Aumento direto de faturamento

Interface antes da intervenção: Detalhes importantes

Na época o aplicativo da Smart Fit era desenvolvido nativamente para Android e IOs. A estrutura legada, desenhada em formato de carrossel, era considerada muito complexa para dar manutenção e fazer mudanças “drásticas”. Por esse motivo, a abordagem de design nesta tela não podia ser intrusiva, especialmente em fase de testes.

Alguns requisitos mapeados

  • Intervenção mínima na interface
  • Reutilização de componentes
  • Interferência mínima na atividade core do app
  • Prever cenários de borda
  • Necessário cenário de restrições devido anamnese
  • “Combinar o jogo” com os responsáveis pelos professores
  • Testes de guerrilha com protótipo simples
  • Desenvolver estratégia de release com base controlável

Alinhamento com líderes e professores

O ecossistema Smart Fit é bastante dependente dos profissionais que atuam nas unidades (professores, líderes e recepcionistas). Sendo assim, toda ação de produtos que possa interferir na atuação deles deve ser amplamente alinhada com os responsáveis pela operação nas unidades, a fim de que não aconteçam mal entendidos. Neste caso, a proposta – ainda que positivamente – interferiria diretamente na atuação dos professores. Sendo assim, juntamente com PO e gerência de produtos, alinhamentos sobre a proposta, testes e posteriormente lançamento da feature foram amplamente realizados.

Teste de guerrilha: “Muito legal! Mas por que?”

Com a realização de um teste de guerrilha com o primeiro protótipo (20 usuários em 2 unidades diferentes) percebemos que as pessoas ficavam muito empolgadas com a possibilidade de mudar o exercício por outro, mas sem a conciência de que os exercícios propostos visavam trabalhar a mesma musculatura para não interferir nos resultados do treino.

Com essa informação, criamos um gráfico que exibe qual é o grupo muscular que um determinado exercício trabalha, dando mais clareza ao motivo da sugestões dos exercícios na feature, o qual foi implementado após os testes.

Percebemos também que a feature proposta entregava um valor adicional: substituir um exercício considerado chato pelo usuário por um outro que o agradasse mais.

A solução: Feature de Troca de Exercícios

Decisões de interface: Entendimento de limitações e uso de IA

  • Foi mantida toda a estrutura que já existia e o design system reaproveitado ao máximo.
  • Apenas um componente novo foi desenvolvido: a visualização do grupamento muscular ativado.
  • O local para inserção do botão “Trocar”, ao lado do nome do exercício, foi escolhido com base na facilidade para implementação do código, baseado no feedback dos desenvolvedores sobre interface nativa legada.
  • Como complemento aos testes de guerrilha, realizei experimentações com Inteligência Artifical (antigo Visual Eyes) para avaliar a encontrabilidade do botão “Trocar”, sem interferências nas funções principais do app.
  • Para evitar questões legais e até mesmo conflitos com a operação de campo (professores), usei chips para informar ao usuário a diferença entre exercícios prescritos e exercícios trocados.
  • Além dos modais de confirmação, também previ cenários de restrições, para impedir que usuários com questões de saúde (informadas em anamnese) realizem trocas sem ajuda do professor.
  • Também foram desenhados cenário de borda para quando um determinado exercício não possuir troca disponível ou por algum motivo os músculos ativados não forem cadastrados.

Minha contribuição: liderando com visão sistêmica e empatia cognitiva

Como designer responsável pela funcionalidade de Troca de Exercícios, atuei de forma estratégica e prática nas seguintes frentes:

  • Redefinição do problema: ressignifiquei o desafio como uma questão de percepção, não de infraestrutura, com base em dados e comportamento dos usuários.
  • Pesquisa híbrida: conduzi análises quantitativas, entrevistas e observações em unidades, além de mapear feedbacks espontâneos e internos.
  • Testes de guerrilha: prototipei rapidamente e validei hipóteses em campo com alunos e instrutores, otimizando a interface com base em evidências reais.
  • Design da experiência: criei fluxos e interfaces intuitivas, priorizando a autonomia do aluno e integração fluida com o app.
  • Cocriação e alinhamento: articulei decisões junto a POs, desenvolvedores, times de operações e exercícios para garantir viabilidade e impacto.
  • Evolução da solução: contribuí com o plano de roadmap para transformar a funcionalidade em um sistema completo de autosserviço.

Resultado dos testes iniciais

Os testes realizados entre o final de 2022 e o início de 2023 trouxeram resultados animadores, acompanhados de feedbacks positivos e espontâneos de alunos e professores. Como não houve impacto negativo nos demais indicadores da experiência base, optamos por um rollout em ondas, priorizando regionais que permitissem maior controle e agilidade nas decisões — caso fosse necessário intervir ou aprofundar análises.

36.000 impactos orgânicos

(~6,23% da base com treinos ativos no app).

18.000 exercícios trocados

Resultado em produção

A feature foi lançada para 100% da base de usuários (3,4 milhões) no final do 1º trimestre de 2023, quando os resultados começaram a ser medidos. Para a nossa alegria, todo o trabalho desenvolvido demonstrou-se um sucesso! Estas pequenas porcentagens representam muito em termos de lucratividade indireta, manutenção da imagem da empresa e satisfação geral dos usuários, especialmente numa base de usuários tão grande, mista e sazonal.

Queda de 7% na lotação como motivo de churn

Segundo pesquisas de abandono realizadas entre outubro e dezembro 2023, de 23% para 16,7%.

Aumento de 5% na penetração do app

De 49% para 54% na base de clientes ativos.

Aumento de 2% nos usuários com treinos ativos

De 17% para 19%.

Redução de 5 minutos no tempo médio de treino

De ~60 min para ~55 min.

46,5% dos usuários com treino ativo adotaram a funcionalidade

Mais de 1,5 milhão de impactos e 700mil trocas realizadas

Fonte: dados internos (2023), relatório para investidores e pesquisa de mercado com 113 respondentes.

Visão de futuro: de solução pontual a ecossistema inteligente

A Troca de Exercícios nasceu como uma resposta pragmática a um problema perceptivo. Mas desde o início, ela foi desenhada com uma ambição maior: ser o primeiro passo na construção de um ecossistema de treino digital inteligente, capaz de atender diferentes perfis de alunos — do iniciante ao avançado.

Para iniciantes, a funcionalidade já entrega valor ao oferecer alternativas quando o equipamento está ocupado. Isso reduz o atrito típico dos primeiros meses, período crítico para adesão e retenção.
Para alunos avançados, o caminho é mais sofisticado. Nossa visão é transformar a Troca de Exercícios em um sistema de customização de treinos com base em metas, preferências e disponibilidade do ambiente, incorporando inteligência de contexto e progressão de carga. A proposta é evoluir de uma simples troca de exercícios para uma experiência de treino responsiva e adaptativa, que entrega valor contínuo conforme o aluno avança em sua jornada.

Próximos passos para alunos intermediários e avançados:

Sugestões baseadas em objetivo: emagrecimento, hipertrofia, resistência muscular ou manutenção — com recomendações de trocas alinhadas ao foco do aluno.
Progressão automática de carga e volume: o sistema poderá sugerir variações de intensidade e complexidade com base no histórico de uso, tempo de treino e feedback de desempenho.
Adaptação ao ambiente em tempo real: considerando dados como horários de pico e ocupação de equipamentos (futuros inputs via sensores, check-ins ou crowdsourcing), o app poderá reestruturar treinos para garantir fluidez, mesmo nos horários de maior movimento.

Curadoria por modalidade: treinos adaptados ao tipo de equipamento disponível na unidade (por exemplo, unidades com foco em pesos livres ou com maior número de estações de cardio).
Personalização com autonomia: permitir que alunos experientes definam quais grupos musculares querem priorizar, tipos de equipamento preferidos ou exercícios a evitar — tornando a experiência mais próxima de um treino sob medida.

Conclusão: Resolver o invisível é criar valor

A funcionalidade de Troca de Exercícios mostrou que não era necessário mudar o espaço físico para melhorar a experiência — bastava mudar a forma como o aluno interage com ele. Ao dar controle e flexibilidade para o usuário, transformamos um ponto de atrito em uma oportunidade de engajamento digital, com impacto direto na retenção e percepção de valor.
Esse case demonstra como ouvir atentamente o usuário, interpretar o problema com profundidade e propor soluções escaláveis pode gerar valor real — para o negócio e para as pessoas.

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